quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Essa tendência ao desequilíbrio


O mundo árabe desperta progressivamente. Os jornais e os livros instantâneos tem demonstrado que a democracia, para os árabes, é como a toupeira revolucionária do Marx, descrita cuidadosamente por Emir Sader ao se referir á América Latina dos últimos 40 anos: ela sai de sua toca e provoca um imenso estrago.

A Tunísia puxou o trem que descarrilhou ditaduras que, aparentemente, eram eternas. Kadafi, Mubarak e outros que se multiplicam num espaço onde intolerância e fanatismo convivem cotidianamente. Mas essa imagem turva do Oriente tem se desmanchado e os orientais, autenticamente, tem mostrado ao mundo o quanto de democracia ferve em suas vidas.

O grito da liberdade, a chama da esperança reatou e, acesa, contamina. O silêncio que havia era estratégico, fazia-se de oculto. Nas entranhas, um vulcão se preparava; homens, ansiosos por liberdade, articulavam o futuro de suas vidas no submundo do autoritarismo.

Essa aptidão à independência não precisou de uma referência: a liderança nascia da angústia. Havia de prestar atenção porque arranjavam-se conspirações por toda parte tentando evitar essa ação popular.

O psicanalista Contardo Calligaris, em sua coluna semanal no Jornal Folha de S. Paulo, escreveu nesta quinta sobre essa grande aceitação das teorias conspiratórias. É um caso, com certeza, que se deve analisar. Como pode homens informados e atentos acreditarem em desenhos da imaginação?

O engraçado é que o Contardo vem para contradizer esse meu raciocínio. Ele afirma que em regra, adoramos entender o mundo como fruto de conspirações que tentam nos enganar.

Faz muito sentido essa afirmação. O autor continua, sustentando os argumentos nas teses de Elaine Showalter (História das Histerias – já esgotado –) concluindo que as conspirações existem porque elas não passam, no final das contas, de uma consolação à nossa existência. Segundo Contardo, nada mais gratificante do que a existência de um plano”, bom ou ruim, mas que esteja sendo coerente – mesmo contradizendo – as minhas intenções de mundo.

Para encerrar, Caligaris ainda ressalta o quanto de prazer individual gera esse sentimento de conhecer uma conspiração, “afinal, o conspirador, ao qual atribuo a vontade de me enganar e manipular, é quase sempre uma projeção, ou seja, é minha própria criação, à imagem e semelhança de mim”, conclui o psicanalista.

As revoltas do mundo árabe surgiram assim, como uma conspiração desconhecida, um levante invisível ou uma bala perdida. O regime cai, depois de exaurir a paciência popular diante dos desmandos e exageros cometidos por um regime extremamente arrogante.

A História, engraçado, se faz de espelho para essas revoluções e mostra a Revolução Francesa, a Revolução Russa de 1917, a Revolução Cubana e a nicaraguense, que derrubaram o monstro do poder sem serem sentidas e reconhecidas como perigosas.

A teoria do Contardo sobre as conspirações explica. São tão íntimas, mesmo representando aspirações coletivas, que o poder estabelecido, embriagado de luxuria e arrogância, desmerece e esquece que há dentro do povo essa tendência ao desequilíbrio.

E não podemos esquecer que, no fim de tudo, há sentido até nas aberrações.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Historiador-cronista, cronista-historiador.

Observar o passado sempre é uma experiência fascinante e, ao mesmo tempo, muito complexa. Há muito de polêmica envolvida nessa disposição em discutir, contrariar e, sobretudo, divulgar uma expressão sobre, muitas vezes, como se deu esse passado.

Foi no século XIX, quando houve a famosa transformação da História em um conhecimento científico, que nasceu essa preocupação com a forma da narrativa histórica, ou seja, aquela que se dispõe a reconstruir o passado. Os cientificistas de uma Europa positivista, envoltos pela explosão de progresso oriunda da Revolução Industrial, tentaram formular uma estratégia que organizasse esse discurso do passado de acordo com as ambições que tinha para o presente.

Repare que a Revolução Industrial deixou um herança que persiste até hoje na sociedade ocidental e que, depois do processo de globalização e da massificação dos dispositivos do Steve Jobs, o mundo inteiro continua respirando, que é essa atmosfera fanática por certezas absolutas, verdades imbatíveis e conhecimento verdadeiro. Vale lembrar que a Revolução Industrial é filha ideológica do Iluminismo, aquele movimento intelectual que defendia a idéia de que a razão é o único instrumento que esclarece o homem para o mundo e o encaminha para o progresso.

Observem, mais uma vez, que avançar é um termo que preenche a existência desse povo todo.Curiosamente, ainda é uma expressão muito presente na sociedade atual. Essa permanência linguística é bem interessante. Sociedades, por mais que reneguem as anteriores, não conseguem esconder essa inconsciente influência, e a linguagem é responsável por essa contrariedade. A sociedade medieval, por exemplo, herdou um vocabulário do latim romano, mas aplicou os significados e os utilizou de maneiras completamente diferentes.

Todo esse arrodeio para falar que, por mais cuidado que se tenha com a narrativa, a História não é o passado. Marc Bloch já atinha atentado para isso,no trabalho sobre o Ofício do Historiador, dizendo que a História não é uma Ciência do passado, mas uma ciência do Presente que estuda o passado. A História, sem pretensões determinantes, é um mundo aberto e cheio de possibilidades.

Todo Historiador, por mais neutralidade que defenda possuir, não nega as condições éticas que o presente lhe oferece. Isso não significa aptidões ao anacronismo, muito menos uma forma infeliz de um historiador que faz de seu trabalho um trampolim político, por exemplo, enfestado de pragmatismo.

O profissional que escreve a história é um grande cronista. É aquele que entende o cotidiano, que sente o cheiro, a dor, o brilho do presente e os reconhece pelo retrovisor da vida. São esses elementos que se transformam fundamentais na hora que o historiador escolhe sua época, como se costuma comentar na academia, para trabalhar e se dedicar a leituras e pesquisas eternas.

Isso tudo para dizer que o Blog, mais uma vez, está de volta, e com a proposta de simplesmente comentar e conversar sobre esse cotidiano que é a cara da nossa História. Contamos com as contribuições dos leitores, que são os responsáveis por sempre apontar a inevitável incompletude de quem se dispõe a escrever, seja lá o que for.

Um último comentário antes de encerrar a postagem: não reparem na falta de compromisso desses dois historiadores, com esse retardo de mais de um ano para escrever alguma coisa. É que o ontem nos ocupa muito.

Boas leituras.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A volta ao trabalho

Amigos e amigas.

O blog Atos e Fatos da História está de volta ao recinto e com grandes novidades. Além da mudança no focinho, estamos com novos parceiros e novas colunas. Destaque para a Coluna A Menina das letras, assinada por Marília Meireles, que é estudante de Letras e adora revelar suas posições sobre o mundo feminino e a mágica da sétima arte.

Os marmanjos do blog continuam firmes e fortes na tarefa de desvendar os mistérios da História. Afonso Bezerra além de produzir os textos tradicionais do Blog, vai assinar a coluna BG da História, que vai comentar e debater as músicas que se tornaram marco na História. Uma boa pedida para quem gosta dos bastidores da música. Philipe ficará atento aos movimentos da Arte e sua marca na tempo. A pintura e suas tendências na mentalidade do homem no século XXI também deixam suas pegadas que se eternizarão pela História.

E os agradecimentos a Penélope Araújo, guerreira da tecnologia que dedicou seu precioso tempo a ornamentar essa pocilga Histórica. Muito bom o trabalho e outros virão, com certeza.

A outra novidade de nosso trabalho é o Twitter do Atos e Fatos. A história se rendeu à tecnologia e agora estaremos divulgando as novidades em 140 caracteres. Pero Vaz com sua retórica que desculpe, mas os pequenos lembretes de hoje batem mais rápido nos preciosos leitores do Atos e Fatos.

2010 vem aí e o blog repleto de novidades. Aguardem!!!

sábado, 25 de julho de 2009

Pelo direito a terra: a militância do Movimento Camponês na atualidade.

Afonso Bezerra.

A enxada de cabo grosso e o trabalho árduo diário são as causas das mãos repletas de calos, feridas e sofrimentos que um pobre camponês do interior do Brasil carrega até seus últimos dias. Muitas vezes prematura, a morte é uma realidade no cenário do camponês sem muito assombro, ou até mesmo sem ineditismos e surpresas, justamente por viver uma vida condicionada, limitada e, sobretudo, sofrida. Mas nem sempre são as enxadas as causadoras do sofrimento do camponês.

Além dos danos físicos impostos pelas atividades do trabalho, a ferida que um homem do campo carrega não é a que fica na aparência, e sim aquela que despedaça o coração, mutilando vidas e sonhos, como é a ferida da luta pelo direito a terra disputada contra os latifundiários, que cercam o campo brasileiro há 500 anos.

Diante dessas circunstâncias do homem agricultor, que convive no presente com males criados no passado, em diferentes momentos da história surgiram movimentos importantes na política do país que pensavam numa forma de solucionar o problema agrário no Brasil. Foi o caso de Canudos, ainda no século XIX; Ligas Camponesas, nos anos 50 e 60 e a atual manifestação política do MST – Movimento dos Sem Terra. Todos esses são influências fundamentais para os grupos que se organizam no século presente.

A socióloga Maria Glória Gohn aponta em seu livro que a década de 1990 foi, substancialmente, marcada por uma transfiguração na postura dos Movimentos Sociais. Foi um período marcado pela ascensão do neoliberalismo, representado pela liderança de FHC, e pelo surgimento de uma nova estrutura nos Movimentos Sociais que, de certa forma, coagiam com a ausência do Estado diante das fragilidades pelas quais o país passava. As ONGS são responsáveis por toda essa transformação na militância e pela mudança no foco e direção dos dos Movimentos Sociais.


Tudo isso, que perpassou toda a década de 1990, tocou o MST, que tinha uma intensa ligação com os Partidos dos Trabalhadores. Os dois, tanto o PT quanto o MST, nasceram numa conjuntura que depositava total confiança no processo eleitoral brasileiro, atestando tal como o maior instrumento democrático para a transformação social no país. E, em síntese, as eleições são um ponto importante da Democracia, mas não dentro do padrão decadente que se tornou o processo brasileiro, e muito menos a principal essência da Democracia.

Com isso, na ânsia por transformações país, as duas organizações fizeram de sua última utopia ganhar as eleições. Tal fato fez com que a Luta no campo ganhasse o mesmo rumo que luta pelas melhores condições do trabalhador, porque o MST se achou, e o é, parte do governo, e o PT se entregou às negociatas das coligações eleitorais. Ao se ligar a essas vias políticas, o PT e o MST acabam por viver na dualidade nefasta dos interesses e acabam esquecendo-se da vida precária do Homem no campo e das condições de trabalho do homem.

O PT e MST, que juntos organizaram as maiores movimentações políticas do País Pós-64, deixam uma marca não muito positiva na história dos movimentos populares, muito mais por essa omissão e coalizão com os que criam as feridas no homem do campo e da cidade, do que por qualquer coisa. E isso marca, sim, a grande ausência do Movimento Camponês, que mudo sua tônica de crítica diante do atual governo.

Depois de oito anos de um governo populacho, acreditar na Reforma Agrária através do INCRA tornou-se uma luta amplamente inviável, porque além de afetar interesses massivos da elite agrária que sustenta e é sustentada pelo governo, é um belo discurso eleitoral. E combina com objetivo de nossa “democracia”: ganhar eleições!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Break the Wall - 20 anos da queda do Muro de Berlim



Philipe Augusto Bastos

Durante a guerra fria o mundo se via dividido, como bem sabemos, entre dois blocos. Cada um deles buscando ter influência sobre paises considerados estratégicos para as suas futuras pretensões de expansão político-ideologica. Mas, dentre todos os lugares palco destas disputas, nenhum se tornou um símbolo tão grande como a cidade de Berlin, imortalizada pelo muro erguido no meio dela, que a dividia em um lado comunista (RDA) outro capitalista (RFA). O muro que foi responsável pela separação de famílias e por repreender aqueles que buscavam as aventuras do lado ocidental.


Apesar de construída às pressas na madrugada de 13 de agosto de 1961, o plano para o muro já era bem mais antigo. Na época, o então comandante da RDA (sigla que quer dizer Republica Democrática Alemã), Walter Ulbricht, já fazia solicitações a Nikita Khrushchov e ao Pacto de Varsóvia para poder fechar as fronteiras e interromper os transportes públicos com a Berlin ocidental. Esta medida adotada por Walter tinha um motivo lógico: as condições em que viviam os moradores da RDA tornavam a outra Berlin um paraíso, um lugar sem restrições severas a liberdade de expressão e que poderia se conseguir o que queria sem muita burocracia do estado, o que ocasionou migrações em massa do lado oriental para o ocidental, situação que obviamente não foi vista com bons olhos pelo governo de Walter.



Após ser aprovada pelo Pacto de Varsóvia, no dia 11 de agosto, o exército se deslocou até as fronteiras com a RFA (sigla que quer dizer Republica Federal Alemã) para poderem no dia 13 bloquear as vias de acesso e assim assegurarem a construção do muro e a intransitividade dos civis pela fronteira. Tais ações, é claro, não foram aceitas de bom grado pelas autoridades federalistas, que em resposta organizaram manifestações populares, não conseguindo interromper a construção. Com essa demonstração de fracasso, tudo o que restava era entrar em contato os aliados buscando apoio para intervenção. Apesar do profundo desejo dos americanos de se intrometerem, eles nada poderiam fazer abertamente, como foi visto no dia 27 de outubro quando tanques americanos e soviéticos se encontraram, mas não se digladiaram, com medo de iniciar uma guerra nuclear. Assim se encerravam as discussões sobre a construção do muro como foi dito por J. F. Kennedy: A solução não é muito linda, mas mil vezes melhor do que uma guerra.


Durante a estadia do muro varias foram as tentativas de transpor um de seus 66,5 km, que graças as 302 torres de observação, 127 redes metálicas electrificadas com alarme e 255 pistas de corrida para ferozes cães de guarda que tornavam dificeis as tentativas de “fuga” para o lado ocidental e facilitavam a prisao dos que ousavam, varias vezes ocorrendo óbitos, tanto dos “rebeldes” republicanos como os de alguns guardas. O muro de Berlin sobreviveu há 28 anos, quando na noite de 9 de novembro de 1989 o muro caiu. Mas, antes de sua queda já havia um intenso numero de protesto de ambos os lados que só pediam unicamente a liberdade de transitar naquilo que um dia foi um pais unido.


Para alguns a queda do muro simbolizava algo maior que estava por vir ao mundo, para outro marca a reunificaçao de uma alemanha ainda fragilizada, que serviria de motor para uma populaçao que precisava se unir e que com isso motivaria o crescimento do pais.O que resta do muro hoje está preservado como forma de recordaçao, para que o povo nao se esqueça dos amargos tempos da guerra fria e da repressao, mas tambem para lembra-los que um muro é um simples obstaculo que nao pode ser capaz de impedir a uniao de um povo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Um passo no vácuo


Desde os primórdios a lua provoca um grande fascínio no homem. Foram construídos calendários e templos erguidos para a adoração deste astro que circula ao redor de nosso planeta. Apesar da distancia existente entre os dois, cerca de 384.405 km, o homem nao perdeu o desejo de um dia pisar em solo lunar e deixar para sempre a sua marca. Por isso, o  Atos e Fatos relembra esse fato histórico que, em 2009, completa 40 anos.


Philipe Augusto Bastos


Com o fim das relações “amistosas” entre os EUA e URSS no pós-guerra, o mundo mergulhava em um clima de muita tensão. Estes blocos de ideologias antagônicas criaram os mais diversos tipos de rivalidades, que apesar de muitas vezes infantis se mostraram muito úteis para nós. Como caso clássico, temos aquilo que se chamou de corrida espacial, a mais conhecida das disputas entre estes dois paises que terminaria com o triunfo americano em meio às diversas controvérsias sobre a veracidade dos fatos apresentados pelos vencedores.

 

Colocado um ponto final no conflito entre os aliados e o eixo, começava a ser posto em prática a pilhagem, nas terras alemãs, de mentes responsáveis pelos grandes inventos da maquina nazista. Entre os vários inventores, os mais cobiçados eram aqueles responsáveis pelos Vergeltungswaffe 2 ou V2; foguetes balísticos que foram as bases para os projetos espaciais de ambos os lados. Entres as mentes cobiçadas havia uma em especial, Wernher Von Braum um dos principais projetistas de mísseis e, futuramente, o responsável pelos primeiros passos do programa espacial estadunidense.

 

 Foi ele quem lançou o Saturno V, que levou todas as naves Apollo para a lua. Mas, apesar de ter pego o principal projetista, as explorações espaciais começaram com um empurrão dos “vermelhinhos”, ou seja, dos Russos comunistas,  com o lançamento do satélite Sputnik de uma base localizada no Cazaquistão. A partir daí estava iniciada a histeria em ambos os lados com mais e mais projetos para saber quem, efetivamente, chegou à Lua primeiro.

 

Após o lançamento do Sputnik o que interessava não era mais mandar engenhocas metálicas e barulhentas para o vácuo, e sim mandar vida para ele. Esta ambição se deve principalmente ao grande engenheiro soviético Sergei Korolev, que convenceu o então líder Nikita Khrushchov a investir no programa espacial soviético, responsável pelo envio do primeiro ser vivo ao espaço, a cadela Kudriavka da raça laika; e posteriormente o primeiro astronauta no espaço em vôo orbital, Yuri Gagarin.

 

Apesar do euforismo russo, os americanos não ficaram para traz, e para fazer frente ao Sputnik, criaram projetos de satélites como o Explore – embrião de uma da internet -  e o Discoverer, projetos que antecederam aquilo que mais se ambicionava: fazer um homem pisar em solo lunar. Este sonho americano foi realizado no dia 20 de junho de 1969, quando Neil Armstrong e  Edwin Aldrin, abordo da Apollo 11, pousaram no mar da tranquilidade e caminharam em solo lunar, eternizando este momento com a frase: "Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade".

 

Apesar de haver muitas controvérsias sobre a chegada do homem à lua e a existência de teorias afirmando que tudo não pasou de uma mera ilusao cinematografica, não se pode negar que todo o alvoroço causado por essa disputa em busca de poder e status refletiu de forma positiva na industria aeroespacial e na astronomia. Novos naves foram criadas, novas teorias lançadas e assim se tornou mais facil entender o nosso sistema solar e tambêm a origem de nosso universo. Ao andar na lua o homem deixo marcas profundas, mas, a mais importante não ficou lá impressa, e sim aqui na nossa cultura e sociedade.

     

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

CUBA – 50 ANOS DO TRIUNFO SOCIALISTA


                       

 O cenário cubano com Fidel no governo



Afonso Bezerra


Durante seis anos, desde o ataque ao quartel de Moncada no ano de 1953, Fidel Castro foi juntando forças para travar uma luta contra o governo de Fulgêncio Batista. Após ser anistiado, e viajando pelo México, Fidel conheceu Ernesto Che Guevara. Junto com Che, seu irmão Raúl Castro e outros camaradas, Fidel organizou a estratégia de ataque á Havana, o que resultaria na etapa final da Revolução Cubana. Utilizando-se de rádio para se comunicar com o povo Cubano, Fidel conseguiu espalhar o sentimento de romper com o sistema ao mesmo tempo com que avisava ao governo que a Revolução estava chegando.

Com a renúncia de Batista no dia 1° de Janeiro, a Ilha passou a ser governada por um novo homem e por uma nova concepção de estrutura política. A esperança encontrou abrigo no mar tropical da Ilha do Caribe.  Durante todo o processo de vinda á Cuba, Fidel e Che, junto com Raúl, não encontraram facilidade. Sofreram perseguições e travaram conflitos pesados. E por onde passavam deixavam a mensagem de que aquela missão era pra reconstruir Cuba. No projeto político da Revolução tinha um Reforma Agrária digna de por fim a exploração no campo; uma organização no meio social urbano que, a partir das máfias e do segundo golpe de Batista, cresceu assustadoramente.

Segundo números de órgãos de pesquisa cubanos, quando Castro assumiu, em 1959, Cuba tinha mais de 1/3 da população analfabeta e 20 mil mulheres na prostituição. O paraíso dos cassinos, dos bares, das belas praias era mais uma maquiagem da crua realidade cubana. Quando os revolucionários assumiram o governo, uma mudança radical apontava na esquina, e a classe burguesa de Cuba sabia que não teria mais o privilégio que tivera em outros tempos. Fidel, sabendo que existiria pressão dessa parte, antecipou: quem não quer mudar Cuba, saia.

Muitos dizem que Fidel Castro junto com Che organizou uma revolução socialista. Mas, na verdade, eles se denominaram marxista-leninista um ano depois, ao selar um acordo econômico com União Soviética, representante do comunismo internacional. Essa aliança política foi o estopim para que os EUA financiassem ditaduras militares na América Latina – uma delas aqui no Brasil (1964/1985) – no plano de combate a ameaça comunista e realizar o embargo econômico á Ilha, isolando-a do resto do mundo. Após o fim da URSS, Cuba sobrou na história como o último país a sustentar o socialismo no mundo.

Enquanto contava com o apoio da União Soviética, Fidel deu um salto na política social cubana, revitalizando grandes hospitais, investindo num sistema de prevenção de doenças populares e aumentando o incentivo da ida á escola, reduzindo o número de analfabetos. Com isso, reduziu o número de mulheres e homens trabalhando à margem da sociedade. Contudo, após perder um forte aliado que foi a URSS, Cuba enfrentou graves problemas econômicos. Em virtude do embargo, o “desenvolvimento” não chegou à ilha. Circulam nas ruas de Havana ainda os antigos carros da década de 50; não existe aparelho de celular, um mundo fechado na Globalização. Mas o que muitos historiadores questionam é se realmente importa o desenvolvimento do mundo globalizado aos cubanos, uma vez que as necessidades essenciais existem e em ótima qualidade

Em muitos países onde tem celular e computador há mendigos, moradores de rua, hospitais públicos em péssimas qualidades, diferentemente de Cuba, que é um país subdesenvolvido, que não tem celular e computador, carros importados e potentes, mas, em contrapartida, é considerado o melhor centro médico do mundo, um índice de pobreza mínimo sem indícios de moradores de rua e com uma educação de qualidade. Nesse aspecto fica complicado defender Cuba sem morar na ilha. Mas o que é bem verdade é que as críticas construídas sobre Cuba vieram do ponto de vista político, apenas.

 

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

CUBA- 50 ANOS DO TRIUNFO SOCIALISTA


              O cenário de cuba antes da Revolução


Afonso Bezerra

 

 

Encontrar argumentos para defender o socialismo em Cuba sempre foi uma tarefa árdua, principalmente por conta de a força militar de Fidel governar a Ilha. No entanto, é fato que, mesmo com o regime fidelista, Cuba prosperou em vários setores da sociedade que são de grande importância para o desenvolvimento de um país, como Educação e Saúde, com destaque para o período em que contava com o apoio internacional da União Soviética, onde muitas vezes Cuba superou os países desenvolvidos com o avanço de tecnologias na saúde e no combate ao analfabetismo.

 

Historicamente, Cuba sempre foi aviltada de várias formas. No século XV, sofreu com a expansão do colonialismo europeu, principalmente o espanhol, que sugou a economia da ilha com a produção do Rum e com cana-de-açúcar. Tempos depois, já no século XX, logo após a Segunda Guerra Mundial, os EUA tornaram-se a maior economia do mundo, colocando para funcionar a todo vapor a indústria da construção civil, para reconstruir a Europa destruída pela guerra. Além desses investimentos, do período posterior a Segunda Guerra, cresce a máfia americana, que vai encontrar espaço ideal para florescer os negócios em Cuba.

 

O governo norte-americano, sabendo que aquela medida poderia salvar o país da crise de 1929, tomou providências de agilizar um governo que soubesse lidar com a situação dos jogos de azar, dos prostíbulos, que afundaram  Cuba num caos social. Em meio a esse jogo político, o golpe militar de Fulgêncio Batista, em 1952, foi um sucesso, para os americanos, e uma infelicidade para os Cubanos. Nesse “mundo” grotesco, de exploração econômica, desigualdade social, um jovem se forma em Direito e, junto com o diploma, vem algo muito mais importante do que um titulo de advogado: uma concepção de mudança para Cuba.

 

O nome desse nobre Advogado, filho de Usineiro, é Fidel Castro. Durante o período universitário, Fidel conheceu alguns ativistas políticos de Cuba, que traziam uma idéia forte de oposição ao governo de Fulgêncio. Muitos vinham com teorias marxistas, outros anarquistas, mas o que Fidel queria mesmo era ajudar o povo cubano. Mesmo assim, aliou-se a um grupo de esquerda e realizou, em 1953, o ataque ao quartel de Moncada, que foi uma investida frustrada. Fidel acabou preso e, durante um julgamento que ele mesmo fez a própria defesa,  foi julgado e condenado a 15 anos de prisão. E mais, ao terminar o seu discurso, disse: La História me absolverá.

 

Exilado no México, Fidel conhece através de seu irmão, Raul Castro, um médico humanista que acabara de andar por toda a América prestando solidariedade aos mais pobres. Juntos, os barbudos e astutos revolucionários, formam um estratégia de volta à Cuba. A notícia da revolução corre por todo o país e o carisma dos dois vai crescendo com a população. No dia primeiro de 1959, o ano novo seria, realmente, um sinal de mudança. Naquele primeiro dia de um ano novo, a Revolução Cubana, que ainda não era socialista, triunfava para o bem – ou para o mal, talvez – do povo cubano. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

>>Especial 90 anos de Primeira Guerra Mundial


A construtora do mundo atual

Há 90 anos o mundo via o fim do então maior conflito da história, que não só redesenhou as fronteiras do mundo como também demonstrou que a paz que acreditávamos existir ainda estava muito longe de ser alcançada.

 


Philipe Augusto Bastos 


O mundo sofreu varias transformações para chegar ao que é hoje, tanto geograficamente quanto sócio-politicamente. Mas, de todos os episódios vividos no inicio do conturbado século 20 o mais marcante com certeza foi a primeira guerra mundial. Apesar de acreditarem que o seu início se dá em 24 de julho de 1914, com a morte do arquiduque Francisco Ferdinando, é errôneo pensar que a grande guerra, como também era conhecida, se limita a um assassinato político causado por um jovem sérvio que pertencia a uma organização que buscava a independência de seu país do então ainda poderoso império Austro-Húngaro. Para entendermos realmente a primeira guerra, devemos nos voltar para o séc.XVIII, em especial para a África, durante o processo de divisão da mesma pelo imperialismo dos paises europeus.

A África como muitos de nos sabemos, se mostrou muito útil para os paises europeus, que a tragaram como sanguessugas e que se aproveitando de sua fraqueza militar, engordaram com os recursos ali existentes durante todo o período mercantilista. Com a crescente industrialização e o aumento da produção européia houve a necessidade de se expandir o mercado consumidor que novamente levou o continente africano a ser palco, agora, de um conflito por consumidores, que rasgariam o território africano de acordo com o interesse europeu, sem levar em consideração rixas tribais causadoras de guerras civis que perduram até nossos dias. Essa divisão, apesar de tudo, não satisfez todos os paises europeus como a Alemanha e a Itália, que se achavam desfavorecidos com a partilha feita.

 

Com a semente já plantada tudo o que se fez foi regar e esperar que a muda brotasse e a árvore crescesse, sendo os frutos colhidos em 24 de julho de 1914, onde se aproveitando da morte do arquiduque, os paises da tríplice entente (França, Grã-Bretanha e Rússia) e da tríplice aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália) se digladiaram por atritos antigos em busca de uma possível “vingança”, como entre a Alemanha e a França pelos os territórios de Alsácia e Lorena antigas composições da França e que agora davam auxilio ao progresso alemão com suas jazidas de ferro e carvão, bases para a indústria.

 

Apesar de todas as desgraças trazidas pela guerra, devemos observar o lado positivo desse conflito que foi o responsável pelo maior e mais rápido avanço da época. É em meio a esses turbulentos 4 anos de conflitos que vemos a consolidação e aperfeiçoamento do avião e do submarino invenções  que se tornaram de grande importância estratégica durante a guerra e que hoje se tornaram importantes meios de transporte e de pesquisa, respectivamente. Para as comunicações temos utilização em larga escala do telegrafo que facilitou a introdução posterior do telefone e do aperfeiçoamento das malhas ferroviários que agilizavam o transporte de suprimentos e soldados, e que futuramente serviram positivamente para a interligar regiões de difícil acesso e para encurta o tempo que se levava para chegar nessas regiões. Vendo estas realizações é que percebemos o importante papel da primeira guerra, também como impulsionador do desenvolvimento do homem no século XX, finalmente o trazendo para a modernidade.

Com o fim da primeira guerra o cenário que vemos é de um mundo não só destruído como também totalmente repaginado, constituído de novos paises como o Iraque e a Lituânia; de fronteiras como a da Alemanha, que foi esquartejada; de uma nova superpotência, como os EUA, o verdadeiro vencedor, já que não teve uma só bala inimiga disparada em seu território e suas fabricas ficaram intactas para que pudessem posteriormente vender para os paises destroçados o que lhes fossem necessário para se reconstruírem; e principalmente de idéias, pois foi durante e depois da  primeira guerra é que vemos as ideologias socialistas e nazi-fascistas se consolidando, que foram de fator importante para construção de nossa sociedade atual, comprovando assim a relevância desse momento não só na construção de nossa historia como também na construção de nosso mundo.          

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

1969 - 2009 - Mais um ano redondo para história.

O ano que vem chegando não vai ser muito diferente de 2008. Esse ano lembramos algumas datinhas importantes para o mundo da história. Tivemos 200 anos da corte portuguesa no Brasil; 150 da Lei Áurea; 100 da imigração japonesa; 50 da Bossa Nova e da  primeira Copa do Mundo que o Brasil ganhou; lembramos de 1968 - O Ano que não terminou para o Brasil e para o mundo e, por fim, comemoramos os 20 anos de Constituição Federal no Brasil. Ou seja, foi um ano redondo para História. 

O leitor atento ao blog Atos e Fatos da História sabe que o ano de 2009, também, nos traz umas datinhas importantes, como a queda do Muro de Berlim, Revolução Cubana e a Chegada do Homem à Lua. Portanto, espere que o AFH, em 2009, virá redondinho para você. Um bom 2009! 

A trajetória do Movimento Estudantil no Brasil


O caminho traçado pelos estudantes em quase dois séculos de luta e as influências do Movimento Estudantil, como Teorias Iluministas, Woodstock e Revolução Cubana, que sacudiram as Universidades.Uma viagem na história do ME e a sua "cara" na atualidade.


Afonso Bezerra 


Ainda existe o Movimento Estudantil? Essa pergunta permanece no imaginário de todo cidadão brasileiro quando ele vê nas telas da TV ou na internet alguma notícia sobre protestos envolvendo estudantes e o estado brasileiro. A imagem que se destaca na lembrança é a da grande movimentação de resistência em 1968, durante o endurecimento do Regime Militar, mas a história de luta dos estudantes é longa e, às vezes, nem muito branda. O  caminho seguido pelos estudantes foi muito longo e cheio de oscilações: vivia naquela linha que divide um movimento combativo e uma atuação pelega. Das primeiras influencias e ações no século XVIII até os dias atuais, os estudantes têm o mesmo papel dentro da sociedade: ser a vanguarda da luta social.  

A existência é de longas datas. No final do século XVIII, jovens da alta classe brasileira retornavam ao país, depois de um bom tempo de faculdade na Europa, querendo por em prática as teorias dos famosos livros do século das luzes. As bases teóricas que esses jovens depositam num Brasil ainda agrário e colônia transformam, embora que em pequena proporção, a realidade brasileira. A proporção é menor devido aos interesses da elite, que adaptavam as idéias libertárias européias ao seu modo de vida aqui no Brasil.  Da participação na Inconfidência Mineira, passando pela luta republicana e a favor da abolição da escravatura, até a formação da UNE durante o governo Vargas, a luta foi permanente e ofensiva contra as atrocidades do estado cometidas contra a população e a comunidade acadêmica.

A UNE – União Nacional dos Estudantes - foi criada no ano de 1937 e foi considerada a entidade de maior  representatividade do meio estudantil, porém ficou em águas mornas durante um bom tempo, devido à repressão do governo Vargas. Naquela época os movimentos sociais estavam desligados por conta da repressão ou estavam na “baia da saia” do governo, recebendo dinheiro em troca do silêncio. Com a influência dos comunistas, liderados por Luís Carlos prestes com a fundação do PCB em 1922, as chamas combativas reacenderam nas faculdades, agitando quem queria um Brasil melhor que aquele. Sempre em busca do progresso e do desenvolvimento, faz-se a marca da tropa de choque da revolução social brasileira.

Sempre presentes nas transformações políticas e sociais, o ME foi, em algumas épocas, carro chefe das mudanças no país. Após o Golpe de 1964, as entidades estudantis, puxadas pela UNE, foram mais que importantes para criar uma oposição construtiva e determinada na luta por liberdade. Mas, como qualquer movimentação política tem sua inspiração, o ME tinha a sua. Naqueles ares pós-64, liberdade era uma palavra fora do dicionário, porém muito aspirada por quem queria um Brasil nos trilhos do progresso. É bem verdade que a década de 60 foi um período onde a política internacional vivenciou a angustia americana na Guerra do Vietnã e vários movimentos surgiram contra a situação imposta pelos EUA.

Grandes revoluções  influenciaram a revolução brasileira durante o Regime Militar. Cinco anos atrás tivemos a Revolução Cubana, liderada por Fidel Castro e Enersto Che Guevara. Uma luta travada nos moldes militares, trazendo como essencial posição revolucionária a disciplina. O sucesso da luta de Che e Fidel contra o regime de Fulgêncio, que era um fantoche americano, exaltou a juventude brasileira, que tinha a luta em Cuba como exemplo de exaltação e combate. Depois de longos, cansativos e infrutíferos cinco anos em conflito no Vietnã, os EUA viram surgir um movimento de contracultura, o famoso Woodstock. No ano de 1969, meio milhão de pessoas insatisfeitas com a crise do sistema, aderia à idéia do Fugere Urben e partia para o campo cantar “Faça amor, não faça guerra.”, em oposição às atitudes americanas.  

 

A disciplina e rigidez de Cuba junto com a transcendência da liberdade em Woodstock foram ingredientes fortes para o prato da revolução brasileira. A França com seus estudantes também teve papel importante na luta aqui no Brasil. Romper com os Militares virou a ordem do dia e votar era o sonho de cada jovem. Em 1984, a UNE com o PCdoB e o PT – à época partidos de esquerda – foram às ruas lutar por Diretas Já. E conseguiram, embora que sofrendo algumas restrições e redundâncias.  Em 1992 ganham destaque no engodo, comandado pela Globo, dos chamados caras pintadas para tirar Collor do governo. Na luta por acabar com a corrupção no governo brasileiro, os estudantes pintaram a cara de verde e amarelo e pediram o Fora, Collor. Esse movimento marcou o inicio da modernidade do ME.

No apagar das luzes do governo Liberal de FHC e caminhando para a primeira eleição de Lula – depois de três tentativas – a UNE realizou seu objetivo de lutas, nos quase 40 anos de militância. E é justamente por isso que muita gente acredita que o ME não existe mais: pela falta de combatividade e da inerência ás medidas do governo Lula, que não correspondem aos anseios antigos e comandados pela UNE. Hoje, o que marca luta estudantil é a briga pela não aprovação do REUNI, que é um decreto do Governo Federal que abre as portas das Universidades, ampliando o número de Vagas sem qualidade de ensino. O REUNI, hoje, é detentor de muita controvérsia.  Mesmo sem tanta iluminação combativa, agindo à surdina revolucionária, o ME permanece atento as mudanças e cria suas ramificações, rompendo com a  UNE, que não é mais a mesma.

 


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Cartas de um filósofo

O professor de Filosofia Eudes Henrique passa, a partir de hoje, a escrever todas as terças-feiras uma carta de filosofia para o blog.



CONCEPÇÃO FREUDIANA SOBRE A RELIGIÃO: A RELIGIÃO É UMA ILUSÃO INFANTIL

Em o Futuro de uma ilusão, Mal-estar na civilização, Moisés e o Monoteísmo, Totem e Tabu, Freud vai dar uma atenção toda peculiar a problemática da religião. Para Freud a religião não passa de uma mera ilusão infantil. É dessa ilusão que provém e é essa quem a sustenta. Freud não só vai mostrar como se dá a ilusão, como também aponta as saídas para o sujeito. Talvez o principal papel da Psicanálise, ancorada pela ciência e pelo “deus Logos”, seja dar ao sujeito a capacidade de adaptar-se a realidade, independente da religião.

O nosso autor tenta nos mostrar que a religião surge como uma resposta imediata a uma ausência deixada pelo a perda do pai, como veremos adiante. Mas há também de se notar que a religião busca alicerçar-se sob aquilo que é mais subjetivo no homem, o desejo. É justamente por isso que Freud a denuncia como sendo uma ilusão, porque esse desejo humano é insaciável e é falso querer pretender preencher esse vácuo por intermédio de algo tão indiferente à própria natureza do homem (retomo aqui a idéia de religião enquanto agência “moralista” que se propõe a domar o homem).

          “A religião, é claro desempenhou grandes serviços para a civilização humana. Contribuiu muito para domar os instintos associais. Mas não o suficiente. Dominou a sociedade por muitos milhares de anos e teve tempo para demonstrar o que pode alcançar. Se houvesse conseguido tornar feliz a maioria da humanidade, confortá-la, reconciliá-la com a vida, e transformá-la em veículo de civilização ninguém sonharia em alterar as condições existentes1.”

A própria religião se autodenuncia quando propaga a construção de um outro Reino, que se inicia ainda aqui na terra. Tal propagação diz claramente de sua ineficiência quanto aos anseios íntimos do homem. Se ela, de fato, fosse uma resposta não se precisaria propagar um por vir como garantia, pois esse reino que ela propaga já estaria implícito no seu discurso. Acusa Freud: “não é segredo que os sacerdotes só puderam manter as massas submissas à religião pela efetivação de concessões tão grandes quanto à essa natureza instintiva do homem”.

A religião nasce juntamente com a civilização, e junto com ambas nasceu também a Lei, a norma e é essa lei ou norma quem as legitima. Nasceram com a pretensão de “civilizar” ou socializar o sujeito. No entanto, o percurso que fizeram todo esse tempo não foi o mais favorável ao sujeito, pois o desconsidera completamente. Não há espaço para o sujeito em sua subjetividade, esse é o mal da civilização.

Eudes Henrique.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

>> 20 anos de constituição

Entrevista rápida com o professor de História Antônio Gama

Um bate-papo rápido por e-mail com o professor de História Antônio Gama sobre os 20 anos da constituição federal. Confira:


Afonso Bezerra


AFH - O cenário político no final da década de 1980 foi de intenso conflito, meio que um estuário. Ninguém sabia mais quem era direita, quem era esquerda. Tanto é que José Sarney, que foi do regime militar, era presidente e participou da construção da constituição. Analisando esse ponto político, podemos considerar que vivemos numa democracia de fato e de lei?

AG - Historicamente a democracia apresentou algumas limitações. Em minha opinião nossa democracia é genuína, contudo ela não é a garantia de igualdade social.


AFH - Em 1988 o Brasil vivia um período de muito alvoroço ideológico, digamos. Era um fim de um regime militar, uma juventude militante queria demonstrar força política no voto, entre outras coisas. Esses fatores psíco-políticos mexeram na formação da constituição de 1988 e ninguém conseguiu perceber o teor anti-democrático?

AG- Não acredito que existiu este aspecto anti-democrático. Outro aspecto que gostaria de argumentar é que o processo de redemocratização do país esteve inserido numa conjuntura mundial mais abrangente, contudo é bem verdade que alguns entulhos ditatoriais estão presentes em nosso cenário político.


AFH - 20 anos depois de instituída, a constituição gera polêmica. No Artigo 5° diz que é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; e é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato. Mas, na realidade, o que percebemos é que essa liberdade é mais restrita aos "grandes" nomes de empresas de rádio ou Tv. Inclusive, nos últimos anos, criou-se um lei de proteção ao meio de comunicação, vedando as rádios piratas.Além desse, temos o Artigo 1° que diz que todo cidadão brasileiro, independente de crença, raça, etc, tem direito a soberania e qualidade de vida. Ou seja, os pontos que citei são completamente contraditórios com os fatos. Podemos considerar esse paradoxo como ponto de causa da fragilidade social brasileira?

AG- O grupos políticos que comandam o país estabelecem uma certa reserva "ideológica".O contraditório é legítimo e faz parte do jogo democrático. Costumo dizer que a democracia é uma festa,todos podem entrar na festa, mas a boa musica, a boa comida e a boa medida é limitada a alguns.


domingo, 7 de dezembro de 2008

>> 20 anos de constituição



"Mentiras sinceras me interessam"


O ano era 1988 e já tínhamos completado quatro anos de "redemocratização". Nascia, então, a nossa atual constituição, que é detentora de grandes controvérsias quanto a sua existência e vigor. Em uma série de dois posts, o blog se aprofunda em várias vertentes que contribuem para o entendimento da força política da constituição federal e faz um balanço da democracia brasileira nessas duas décadas de "liberdade" após o regime militar.



Afonso Bezerra

Em 1964 os militares davam o golpe e assumiam o poder do maior país da América do sul, territorial e politicamente falando. O Brasil acordou tendo em seu governo rifles, fardões, uma postura irredutível e uma sanguinária repressão exposta e sem medir proporções. Jornalistas ou qualquer cidadão que mostrasse seu ponto de vista, e ele sendo contrário ao regime, teria pouco tempo pela frente de liberdade ou, até mesmo, de vida. Marcados em calendário, foram exatamente 20 anos de ditadura militar. Em 1984, no governo gerenciado pelo general Figueiredo, o Brasil entrava na rota democrática e caminhava para os braços do liberalismo, iniciado por Fernando Collor de Melo em 1989. Mas, antes disso, tivemos um processo lento e árduo da consolidação de um regime democrático, embora que no papel: a eleição parlamentarista de Tancredo Neves - com sua morte, assume Sarney - e toda uma campanha presidida por Ulysses Guimarães pela formação da constituinte, por eleições diretas e por um sufrágio universal.

De uma origem aristocrática e de uma postura firme diante dos púlpitos parlamentares, Ulysses Guimarães, então do recém-modificado PMDB, tornou-se um emblemático e estranho político popular devido à sua postura no engôdo da construção da constituinte. Em 1984, por todo Brasil, O senhor diretas, como ficou conhecido, ganhou milhares de fãs e admiradores por sua posição a favor de uma democracia, na luta pelo voto e por um governo presidencialista no Brasil. Amigos ou não, a relação de negócios envolvendo senhores políticos e senhores empresários - principalmente de comunicação - foi se apertando com a postura da Emissora Rede Globo de Tv, que noticiou um comício das Diretas Já com 100 mil pessoas, na praça da Sé em São Paulo, como uma comemoração de aniversário da cidade. A repercussão foi dura para os caciques que em cima do palanque estavam e contavam com o apoio da imprensa da massa. Mas a emissora se mostrou ainda ligada ao regime anterior. Tempos depois, vendo o sucesso da caravana das Diretas Já e a adesão popular crescendo, muitos políticos que questionavam a mudança política do país, viraram grandes defensores da democracia e da renovação no Brasil, e no mesmo caminho seguiu a imprensa submissa: onde o poder apontava desembarcar.

Costurando a situação, os oportunistas se abraçam em busca do poder na renovação política. Com o anúncio da volta do regime presidencialista e pelo voto do povo, a população brasileira se animou e foi às ruas vibrar por essa mudança. Mas nem tudo era tão bom como eles pensavam: havia um aviso de que o primeiro presidente da redemocratização seria eleito pelo parlamento brasileiro, com o álibi de que era para manutenção e estabilização do processo político, visando conter possíveis golpes de retorno militar. A contradição do termo redemocratizar começa logo aí, na redemocratização. As esperanças se sustentam na fé inquebrantável do povo brasileiro. E todos unidos foram até 1988 esperando ouvir a voz dizer que "o povo vai eleger o presidente".

O ano de 88 chegou e com ele a transformação social brasileira: a criação da constituição. A verdadeira intenção na formulação deste artifício jurídico era de criar uma ampla defesa do povo brasileiro e de uma camada que é mais oprimida, como os índios e os camponeses, com a demarcação de terra. A criação do documento dos Direitos Humanos, buscando atenuar o preconceito com negros e homossexuais e, inclusive, ampliar a participação do povo brasileiro na legislação através de seus representantes Deputados ou Senadores.




Folha Imagem/Lula Marques



A realidade, duas décadas depois, é triste. O povo que tanto esperou chegar 1988 para poder votar, afoga-se nessa turbulência social em que vivemos e só serve para legitimar as eleições, que se repetem em dois e dois anos, como se fossem uma manutenção de interesses da restrita alta classe brasileira. A firmeza e combatividade ficam julgadas como irrisórias e ineficientes, porque a maioria dos parlamentares é formada por grandes empresários, fazendeiros, etc. Durante 20 anos vivemos sob a promessa de Reforma Agrária por vários governos, inclusive por um que se dizia dos trabalhadores, dos pobres, como foi a chegada de Lula ao poder. A pergunta que não cala é como um parlamentar, dono de latifúndio, irá aprovar uma emenda constitucional que vai deliberar a reforma agrária no Brasil?

A imparcialidade e a defesa de uma mudança social fica restrita ao discurso durante as eleições. Além desses problemas, temos a realidade crua da não execução dos artigos inseridos na constituição, como a defesa da liberdade de expressão. Várias rádios com ideologia editorial nas linhas educativas foram fechadas com argumentos de que feriam a lei governamental contra as rádios piratas. Na verdade, as rádios são fechadas por serem incisivas na crítica ao governo, ao problema social brasileiro, diferentemente das rádios comerciais, que têm concessões renovadas automaticamente, e que tocam músicas pornográficas, sem nenhum crescimento cultural e crítico. Acredita-se que esse tipo de entretenimento é permitido com tanta facilidade visando o entrave ideológico da população contra os problemas do país, ou seja, é uma forma de manipular uma ordem social que beneficie o governo.

O que vem sendo noticiado nos últimos dias pelos jornais são, também, os 20 anos da implantação do SUS - Sistema Único de Saúde, que é uma prestação do serviço público na saúde. De certa forma, foi um grande avanço para as pessoas serem servidas com "qualidade" no atendimento médico. Mas o que se percebe hoje, duas décadas depois da implantação do sistema, são os hospitais em estado decadência, um investimento pífio no desenvolvimento de tecnologias para ampliar a pesquisa médica. Pessoas morrendo em filas, sendo atendidas nos corredores, um atendimento rude. Tudo isso é oriundo da falta de atenção e o mal investimento de políticas públicas do governo. A educação do Brasil, nesses 20 anos de constituição, segue no mesmo trilho que a saúde: em estado de decadência. O número de violência nas escolas públicas aumentam consideralvente. Jovens com 15 e 16 anos, que estão terminando os estudos, saem da escola parcialmente alfabetizados, com dificuldades em leituras e os professores não recebem os investimentos devidos para o sucesso na sala de aula.

Com essas informações o que se vem a entender é que o governo, ou melhor, o estado tem tido como função ser um divisor de águas na política social: dividir o Brasil em Castas: Ricos x Pobres. Enquanto os sistemas de saúde e educação públicos andam em deficiência, os privados recebem prioridades do governo. Como exemplo temos dois programas sociais ligados à Educação, que são o Rumo à Universidade e o Reuni, que é o incentivo à contração da propriedade privada, responsável por essa disparidade social existente no Brasil. O que se constata com essa realidade é que as mentiras sinceras interessam e alimentam a idéia de que vivemos em uma democracia




*As fotos são do Folha Imagem/ Lula Marques.
 
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